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O papo dos papos dos neurônios

Para iniciar os papos do ano, eu estava escrevendo um post sobre dor e travei. Eu não consegui explicar um ponto sobre comunicação entre neurônios de uma maneira satisfatória. Eu escrevi algo como, a conversa entre os neurônios, que é o que costumo dizer quando eu quero falar dessa comunicação de maneira simples. Mas essa conversa entre os neurônios é tão interessante que eu resolvi parar de escrever sobre dor e escrever o primeiro post do ano sobre esse papo. 

Quando a gente escuta certos comentários sobre o funcionamento do nosso cérebro, às vezes fica parecendo que ele é uma caixa preta. Na verdade, o cérebro é formado por muitas células, assim como a pele, ou o fígado, por exemplo. Um dos tipos de células que compõe o cérebro são os neurônios, e a comunicação entre eles permite que os nossos comportamentos sejam executados. A maneira mais comum dos neurônios se comunicarem é liberando uma substância química chamada de neurotransmissor. Existem vários tipos de neurotransmissores, você já deve ter ouvido falar de alguns: dopamina, serotonina, entre outros. Dependendo do tipo de neurotransmissor liberado o neurônio seguinte pode ser ativado. Isso significa que o neurônio seguinte também irá liberar o seu neurotransmissor, e assim, a conversa continua. Acontece que os neurônios não estão todos alinhados como pérolas enfileiradas em um colar. A distribuição de neurônios do nosso sistema nervoso está mais para a confusão daquele seu colar de cinco camadas que embolou. Dá para imaginar a complexidade da comunicação.

Então, vamos supor que você está tentando estudar e tem uma pequena aranha te incomodando. Quando você decide pegar a aranha, você executa um movimento em direção a ela. Para que esse movimento aparentemente simples ocorra, muitos neurônios precisam liberar seus neurotransmissores. Mas, a aranha se move muito rápido, você deve persegui-la com a sua mão. Você precisa replanejar o seu movimento, inibir um movimento anteriormente planejado, que não deu certo, para executar outro. A maneira que esse movimento pode ser inibido é pela liberação de um outro tipo de neurotransmissor que vai inibir a atividade do neurônio seguinte. Então, temos neurotransmissores que podem ativar o neurônio seguinte, e temos neurotransmissores que podem inibir o neurônio seguinte. Inibir significa que o neurônio seguinte não vai exercer o seu papel, não vai liberar o seu neurotransmissor. É assim que os neurônios mudam de assunto ou o ajustam.

Saiba que eu simplifiquei MUITO o papo todo. Então, imagine como é complexo quando consideramos não só alguns neurônios, mas o sistema nervoso como um todo. No nosso cérebro cada neurônio conversa com cerca de 10 mil outros neurônios. É nesse jogo de liberar neurotransmissor, que ativa ou inibe os neurônios seguintes, que todas as nossas funções são realizadas. Ainda, eu descrevi apenas um tipo de comunicação, a química, existe também a elétrica que é menos comum, mas importantíssima. Os cientistas têm muito trabalho, e nós temos assuntos para muitos outros papos. Que bom!



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